Limonada
De estagiária a sobrevivente
Na maioria das vezes, grandes amadurecimentos só vêm através de grandes traumas. Pode ser que alguém discorde de mim. Acho que a discordância se dá por pessoas que foram gravemente traumatizadas e não amadureceram, mas isso se dá do mesmo jeito que só se pode fazer limonada com limões. Você pode apenas ter limões azedos… ou fazer limonada com eles. Nem todo mundo fará a limonada, é claro. Mas, para fazer uma limonada, é preciso ter limões, oras!
Impor limites às vezes é difícil.
Quando o limite que marcamos é ignorado, a retirada parece ser brusca, mesmo quando ela foi sinalizada.
Eu assinei um documento dizendo que não comentaria sobre minha experiência no estágio que fiz, mas acredito que meu relato é importante (ao menos, pra mim) e não terei problemas se não disser onde vivi todas essas doçuras e amarguras.
Entrei num vínculo sem mapa, sem bússola e sem rede. Assumi uma função de alta complexidade emocional e técnica — sozinha. Não houve informações, reunião inicial, alinhamento, PEI estruturado, articulação com terapeutas, nem um plano institucional que me sustentasse. Naveguei águas turbulentas sozinha — não vou omitir que tive ajuda de uma professora e algumas colegas, mas no olho do furacão, tudo parece muito solitário.
Dito isso, nem toda despedida é terapêutica.
Estou esclarecendo pois não me despedi do aluno que mediava ao sair.
Muitos podem achar uma escolha monstruosa!
Mas em contextos de: vínculo intenso, alta desregulação emocional, tendência a reações extremadas e ausência de contenção institucional, a despedida pode reabrir feridas, provocar regressão maior, ou virar um palco de justificativas que ninguém ali está em condição de elaborar.
Por isso, resolvi evitar maiores danos adicionais.
Sim, ofereci um fechamento técnico, não emocional.
Sim, vai doer.
Mas essa dor não nasce da minha saída — ela nasce da dependência criada pela ausência de estrutura da própria escola.
Quando uma instituição permite que um único profissional vire referência emocional, organizador sensorial, mediador pedagógico, tradutor do mundo inteiro, ela cria um vínculo injusto com o aluno e cruel com o profissional.
Percebi isso a tempo de não me perder dentro desse ensopado pedagógico sem receita. Fui construindo um método por intuição, leitura de comportamento e sensibilidade clínica, mas isso não pode ser exigência institucional permanente — fui muito além das minhas obrigações!
Muitos enxergam os estagiários como uma mão de obra barata, mas nós somos profissionais em formação e exploração nunca fez ninguém aprender um ofício.
Ninguém deveria aprender mediação na base da exaustão física e emocional.
Isso é sobrevivência, não formação.
No fim, entreguei o aluno melhor compreendido do que o encontrei — e, pra mim, isso basta. Eu criei uma legenda completa para que esse aluno fosse compreendido, se a escola irá usar o que desenvolvi para compreendê-lo… já não é assunto meu.
A questão é que cuidar sem estrutura vira adoecimento e esse adoecimento se tornou extremamente normalizado na área pedagógica, a desonra sistemática é justificada, ignorada, reforçada. Virou troféu: “Olha como eu me doo pela causa”. Mas quem paga a conta?
E o pior: isso se perpetua porque fingimos que é vocação. Que o “chamado” pedagógico é sinônimo de martírio. Não é. É armadilha.
Instituições jogam profissionais no abismo e esperam que achem asas no caminho.
Mas asas não brotam de exaustão — brotam de suporte, de PEI reais, de equipes articuladas, de limites respeitados.
Vou ser honesta, não acredito na transformação educacional — para uma pessoa tão otimista, eu sou bem pessimista em relação a isso. Acho que as coisas vão, muito provavelmente, continuar assim ou irem piorando. Mas sabe no que acredito? Na transformação individual. Um por vez.
Se meu relato plantar uma semente de dúvida em quem ainda navega sem bússola, uma semente de coragem para demarcar limites claros em alguém ou uma semente de compaixão por quem tem contatos com agentes da educação, já valeu a limonada azeda.
Antes que meu desabafo pareça com cuspe no prato em que comi, devo dizer que não é isso. Tive uma experiência valiosa em vários aspectos importantes, mas terminando mais um estágio em uma das melhores escolas da qual fiz parte, percebo que nem a melhor escola realmente funciona “por trás dos panos” e me questiono se toda grande instituição não é somente um grande corpo instável de boa aparência sustentado por pessoas sobrecarregadas, que seguem cambaleantes enquanto acham estar salvando o mundo.







Também sou adepto da ideia do salvamento individual.
Não sou dessa area sua de atuação, mas sei como é por ter uma mãe pedagoga. Por muito tempo pensei em me tornar professor por conta que na minha graduação tive ótimas referências de profissionais - mas sou meio pessimista com o sistema, se vai melhorar ou não.