O Subsolo
Sim, ainda sobre minha leitura recente.
Estou lendo Memórias do Subsolo, o que me dá a sensação constante de estar correndo atrás de um coelho apressado, como Alice — sensação que não difere muito daquela provocada por O Duplo, livro que me fez sentir uma refém perfeita do Chapeleiro Maluco. Sigo atenta, certa de que algo essencial está logo ali, ao alcance dos olhos, mas o livro nunca se entrega por completo. Não há um centro claro, um assunto firme, um ponto de chegada minimamente confortável. Há desvios, voltas, contradições, deduções que não se fecham.
E, ainda assim, sigo. Não exatamente por prazer — confesso —, mas porque desejo chegar a algum lugar dentro do labirinto de Fiódor, ainda que eu não saiba onde. Tampouco faço questão de que seja a saída ou o coração do labirinto.
Bem diferente de Noites Brancas, que me acolheu com uma ternura melancólica e um acalanto estranhamente lógico e puro, esses dois livros me empurram para um terreno completamente instável. Eles querem me desorganizar.
O que mais me chama atenção é como Memórias do Subsolo soa, para mim, como uma espécie de “continuidade” de O Duplo. Não uma continuação narrativa, mas uma continuidade de persona. Os problemas são os mesmos, as obsessões são as mesmas, os desejos também. O que muda é o grau de consciência — e de honestidade — dos personagens. Golyádkin evita se enxergar; o homem do subsolo, não. Ele admite. Confessa. Gosta. Nomeia o que pensa e sente, mesmo quando isso o diminui. Há nisso uma espécie de “evolução” torta, ambígua e incompleta.
O homem do subsolo parece milimetricamente menos neurótico, menos à beira de um colapso total — o que não o torna saudável, apenas diferente. Ele não explode de modo grandioso nem se fragmenta em duas consciências como Golyádkin; ele apodrece em silêncio — e parece aceitar isso com uma satisfação inquietante. Troca o delírio pela lucidez, ainda que essa lucidez me pareça brutalmente inútil.
Ambos falam de maneira nervosa, quebrada, defensiva. A antecipação da crítica do leitor, as contradições conscientes, o tom auto-interruptivo… Tudo isso me parece menos um recurso estilístico e mais o funcionamento da mente deles. A estrutura psíquica é a mesma. Dostoiévski não descreve conflitos: ele escreve a partir deles.
Isso tudo me incomoda profundamente, porque faço questão de distinguir com muito rigor:
inocência × imaturidade
lucidez × paralisia
discernimento × autossabotagem
No início, achei o homem do subsolo apenas confuso, revoltante e um pouco triste. Depois, já me peguei torcendo para que tivesse o mesmo destino de seu amigo duplicado: institucionalizado, completamente afastado da convivência comum.
A leitura desses dois livros parece ser exatamente isso: correr atrás de algo que sempre escapa, cair em buracos não sinalizados, perceber que o desconforto não é um obstáculo, mas o próprio caminho. Talvez o cerne não seja alcançar um lugar estável e claro — que eu tanto amo —, mas reconhecer que, uma vez lá dentro, não há coelho algum capaz de nos conduzir facilmente de volta à superfície.
Memórias do Subsolo, para mim, se assemelha à observação — inútil, embora curiosamente fascinante — de uma ferida purulenta e sanguínea. É o desprezo generalizado, a inveja extrema, o narcisismo mais vil e o prazer mórbido na destruição, sobretudo na autodestruição. É também a preservação consciente de impulsos perversos e irracionais, na contramão da razão, sustentados por uma crítica petulante, desordenada, sem fundamentos claros e profundamente hipócrita à “sociedade”.
Foi um livro asqueroso. Bugou completamente minhas expectativas sobre a literatura do russo com cara de cachorro que caiu da mudança e sobre o mundo que ele parecia me prometer em Noites Brancas — mundo que, admito, construí dentro de mim.
“Roy” é cheio de tudo o que eu mais odeio — e tudo o que se opõe frontalmente à ideia mesma de humanidade: vitimismo narcísico, complexo de superioridade, arrogância, agressão gratuita (e prazer nela), manipulação emocional e mental, esse senso de direito sobre tudo e todos que nasce de se sentir menor que o mundo — e de fato é: minúsculo, atrofiado e vil, porque assim se faz e assim gosta de ser. Ele quer controlar e monopolizar vidas alheias porque não domina a própria. Destrói momentos, contamina relações, exige que todos afundem com ele numa miséria sem fim. Não tolera a simplicidade, a paz ou a felicidade do outro — nem mesmo como aparência. Sobretudo, não suporta a liberdade alheia. Verdadeira ou não, ali está o limite absoluto. Roy abomina a liberdade porque ele próprio é o pior dos cativos, o mais fraco dos escravos.
O que mais me espanta é a possibilidade de alguém acreditar que Roy seja apenas um produto de suas circunstâncias — um coitado moldado por humilhações e privações. Não. Ele nasceu assim e escolheu aprofundar-se na lama que chama de alma. Nenhuma pessoa, nenhum cenário e, certamente, nenhum amor teria sido capaz de alterar esse “destino”. Nada jamais é suficiente para Roy. Nunca foi, nunca será.
Foi uma leitura revoltante e asquerosa, mas interessante perceber como Roy se revela capítulo após capítulo. Ele entrega tudo, diz exatamente quem é, quais são seus pensamentos, desejos, interesses e objetivos. Por que não acreditar nele quando se define como mesquinho, traiçoeiro, interesseiro — e mais?
É impossível não pensar na quantidade de autor que há no personagem ou na quantidade de personagem que há no autor. Isso me deixa encafifada. E não nego: se essa proporção continuar crescendo à medida que avanço na obra de Dostoiévski, é bem possível que eu passe a nutrir por ele todo o mesmo preceito negativo. Autores se entregam na escrita — e esta tem se mostrado reveladora demais.








Embora Noites Brancas seja uma novela mais esperançosa, acho que não fica muito atrás de Memórias... Quero dizer: o sonhador é o embrião do homem do subsolo.
Tem gente que penetra o rio da ficção só até as canelas e sai tão seca quanto entrou. Você é uma leitora muito especial, porque mergulha de cabeça e sai encharcada, pingando as gotas grossas da experiência. Elas dão substância a interpretações sempre muito inteligentes, interessantes e pessoais. Gosto bastante das suas resenhas e estou animado para acompanhar os próximos posts sobre o Dostoiévski.