Toca
Eu nem sei sobre o que exatamente escrevi.
Eu nunca saí do Rio de Janeiro. Meu mundo é tão grande e tão pequeno quanto aqui. Também nunca andei de avião. Tenho medo de altura e enjoo com qualquer transporte. Apesar desses detalhes, nunca andei de avião apenas porque nunca tive dinheiro (e também nunca “perdi nada” tão longe assim, não tenho essa vontade dentro do meu coração).
Minha casa, desde o meu nascimento até hoje, é um mulherio — o verdadeiro clube da Luluzinha com apenas um Bolinha (meu painho).
Eu amo enfrentar coisas, mas se engana quem pensa que esse é meu primeiro instinto. No início, eu fujo mesmo. Corro que é uma beleza. Se bobear, me escondo também. E fecho os olhos porque, segundo a infância, o que não vejo também não me vê.
Não consigo ter muita inspiração com as mãos no computador. As ideias parecem preferir o celular (por comodidade) ou o tradicional papel — talvez porque eu sempre ande cercada por ele. Por onde vou, papéis me acompanham (que vintage). Neles, anoto pensamentos, frases, listas e lembranças.
Às vezes, porém, jogo fora minhas próprias inspirações por engano. Outras vezes, tiro prints de informações que não posso esquecer e, justamente por isso, as esqueço.
Tenho minhas manias seletivas. Arrumo o armário com um zelo quase solene, mas a cama nem sempre recebe a mesma dedicação. E, embora eu só não perca a cabeça por estar grudada ao corpo, raramente perco canetas. Há uma lógica particular governando minhas desordens.
Algumas coisas mudam com o tempo. Não cato mais feijão. Não tomo mais café com açúcar. Também não faço mais questão alguma de acompanhar a política. Essas pequenas desistências têm o mesmo sabor de economia e resignação — hábitos que desapareceram sem cerimônia, como os papéis que jogo fora sem muito critério e com uma gotícula de confusão.
Estou entre os vinte e os trinta anos, o que significa estar entre o terror e a liberdade. Deixar os vinte nunca me assustou tanto e, ainda assim, há uma estranha liberdade em seguir rumo aos trinta. Não é como se eu pudesse evitar que o tempo passe; por mais que eu desejasse escolher se avançaria ou não, ele segue indiferente (como sempre foi), ora arrastando-se, ora correndo, sem pedir opinião.
Com o tempo, aprendi que querer não basta. Com o querer, aprendi que o tempo não basta.
Outra coisa que aprendi é que uma mão atrás das costas da pessoa certa sempre esconde um segredo cheio de pétalas, cores, aromas e amor (e um laço bonito). Alguns podem achar que isso é muita sorte, mas eu me considero mimada ao invés de sortuda. Sorte é o acaso; mimo é o carinho dengoso de um Deus pertinho de nós.
Acho uma diversão especial quando o sacolejo do transporte cola as nossas tripas no teto do nosso interior e, por um instante, a terra perde sua gravidade. Uma pausa ou uma homenagem à montanha-russa que é a vida adulta. Eu gosto. É raro e divertido como aqueles falecidos palitos promocionais da Kibon, que nos davam outro picolé de graça.
Gosto da imagem porque ela não precisa de explicação. Gosto da explicação quando não posso produzir a imagem. Ambas são artes da mesma coisa: compartilhar o momento, o sentimento, o ponto de vista, o significado das coisas. Expressão fixa e momentânea de coisas que, na verdade, nunca param ou permanecem.
De vez em quando, me dá uma canseira e penso que, talvez, se não houvesse tanta louça suja na pia, se não houvesse tanto trabalho a entregar e se não houvesse “uma vida a ganhar”, talvez tudo tivesse um pouco mais de graça, de paz. E se eu fosse mais capaz, se conseguisse ir um tanto mais além...
Mesmo assim, eu vou. Estou indo.
Descobri há pouco tempo palavras novas — e sinto que, lendo Machado de Assis (Joca para os íntimos), elas nunca se findam: pujança e sequaz. Gosto delas como gosto dos papéis que guardo nos bolsos: não porque me sejam imediatamente úteis, mas porque parecem conter alguma coisa de que eu possa vir a precisar algum dia.
Pujança me lembra uma força que cresce mesmo quando a gente não percebe, e sequaz, embora antiga e um tanto desconfiada, caminha atrás de outra palavra como quem não quer ficar sozinha.
Talvez eu ainda não saiba exatamente o que fazer com elas — e é assim com muitas coisas, admito. Mas acredito que alguns papéis encontrados no fundo do bolso, da bolsa, da gaveta ou do armário podem conter alguma ideia que valha a pena guardar.
Pra usar… algum dia.



Me identifiquei. E vou vou te dizer: essas mudanças aumentarão cada vez mais, com o passar da idade, e é ótimo ver tudo cada vez por uma nova perspectiva que antes vc não tinha. É quase como ver as mesmas coisas, mas como novidade.
PS: grandes fãs do Joca (2 membros) 🖐️
Adorei!
Um relato simples mas revelador e encorajador, para a vida como ela é, sem filtros, sem retoques, crua e bela como deve ser.
Bem isso!
Espero mais...